domingo, 8 de setembro de 2019

Alô?


- Alô? Está me ouvindo?
- Quem está falando?
- Você está me ouvindo?
- Ah... sim....
- Estranho, eu sempre tive a impressão que você não me ouvia.
- Eu estou te ouvindo, Marcelo. São quatro horas da manhã.
- É que eu estava aqui sem sono pensando que, porra, talvez você realmente tenha um problema de audição, imagina só! Fiquei com a consciência pesada, nosso relacionamento terminou justamente porque eu tinha a impressão de estar falando sozinho, sabe, eu ficava impaciente e...
- Marcelo...
- Não! Me escuta, por favor, me escuta só desta vez! Eu estava aqui pensando que se você realmente tiver um problema de surdez e isso for constatado, quero dizer, eu posso te levar ao médico, pagar todos os exames necessários, aí quem sabe, Tereza, quem sabe a gente possa sair, beber alguma coisa, conversar, não sei. Seria muito diferente, Tereza, porque eu teria consciência que você realmente tem um problema auditivo, que não se trata de egoísmo, de descaso, você está me ouvindo?
- Estou.
- Então fala alguma coisa.
- Marcelo...
- Tá vendo? Tá vendo só? Você sabe que tem problema! Você não consegue emitir nenhuma opinião concreta sobre nada porque você simplesmente não escuta! Amanhã nós vamos resolver isso, meu bem, fique tranquila, tudo vai entrar no eixo, viu?
- Porra, Marcelo, eu não tenho problema de audição nenhum, você enlouqueceu?
- Você conhece algum médico?
- Que médico, Marcelo, que médico? Do que você está falando?
- Se você tivesse algum médico na família, poderia pedir a ele algum laudo forjado, um atestado mesmo, sabe? Como as pessoas fazem para faltar o emprego, enganar o chefe, eu ficaria achando que você tem um problema auditivo e nós poderíamos retomar de onde paramos...
- Se eu tiver algum médico na família, pedirei que te prescreva drogas psiquiátricas. Pesadas.
- Alô, Tereza? Alô? Está me ouvindo? ALÔ? ALÔ, TEREZA?
- Estou. Não grita.
- Foi só um teste. Diga: você ouviu só os dois últimos alôs?

segunda-feira, 15 de abril de 2019

O dia em que minha casa me pediu desculpa


Desculpe por guardar memórias. Pelos porta retratos, pelas xícaras, pela compilação de bilhetes que você cuidadosamente guarda em algum lugar bem dentro de uma gaveta bem dentro de um armário bem dentro de mim. 

Desculpe pela cafeteira, que hoje faz café para uma só. Desculpe por aquele guarda roupa intacto com pertences que não são seus e, por agora não serem de ninguém, naturalmente você não saiba o que fazer deles. Desculpe por também não saber. Eu gostaria de poder ajudar.

Desculpe pelo jardim, pelo cão, pela disposição dos móveis, pela correspondência que chega em um nome que já não está. Por essas escadas onde você costumava a ouvir ou gritar "cheguei!". Pelo ímã na geladeira com o telefone do restaurante japonês. Pela maquiagem que você dividia. Pelas velas que você acendia.

Desculpe principalmente pelos domingos.

Desculpe por te fazer chorar.

Não importa se sua hospedagem será breve, é uma honra ser o seu teto. Por quantas luas você quiser. Costumam dizer, os inocentes, "se essas paredes pudessem falar." Eu falo. 

E falo que presencei tanto da sua caminhada como ninguém. Sou um portão tão feliz quando você entra. Uma cama quentinha quando você se deita. Obrigada por acender as luzes, por trazer de volta a vida. Por deixar uma música correr. Por brindar naquele copo. Obrigada por não me deixar morrer.

É uma pena que eu não tenha braços. 

Você não tem ideia de como eu te apertaria forte agora.