Bastou o macaco evoluir um pouquinho para já sair criando pirâmide, Madison Avenue, torradeira elétrica, transtorno obsessivo compulsivo, candomblé, intolerância à lactose, biscoito O Globo, helicóptero e gel anti age.
Escolheu, ele mesmo, um nome para si: Homo Sapiens. Do latim, sabichão.
Determinou a disposição das letras e atribuiu um significado ao vocábulo. Ficou definido, num acordo entre ele e ele mesmo, que era sábio.
Dizem ter sido a primeira coisa que nomeou, dada sua importância em relação a todo resto.
Afinal, cá entre nós, ele representava a única espécie racional privilegiada com esse espetáculo de sinapses cerebrais tinindo como queima de fogos.
Depois, só depois, o macaco denominou as coisas menores.
Inicialmente, era mera questão de sobrevivência. "Fogo!". Criou um som para isso. Predador à vista! Tigre atrás de você! Sigam-me!
O segundo momento, tempos mais tarde, foi quando decidiu ser CEO de uma empresa em Tóquio e precisava estabelecer certa relação comunicativa entre os seus funcionários.
Nessa época, ele já estava com preguiça de criar palavra por palavra, então optou por blocos de construções genéricas. Surgiram, assim, as frases:
Vamos estar arquivando seu currículo no banco de dados.
Estamos precisando de um funcionário com mais proatividade.
Estarei transferindo.
Estarei verificando.
Tudo no gerúndio mesmo, porque a essa altura o macaco tinha mais o que fazer além de flexionar verbos.
Desta data, também, consta registro histórico do surgimento das palavras "prezado", "ciente" e "atenciosamente".
Toda uma estrutura linguística para manter ativa a cadeia de formigas operárias.
Tudo funcionava nos conformes.
Eis que o primata, não satisfeito com todo império que havia criado, resolveu ousar. Chegou em casa meio cabisbaixo, abriu uma garrafa de vinho, colocou um jazz na vitrola e se pôs a criar símbolos que representassem tudo de abstrato e intangível: seus sentimentos.
Logo ficou pronta a cartilha: a partir daquele momento, bem querer se chamaria amor. O termo frustração significava que algo não havia saído de acordo com suas expectativas. Raiva foi o nome que escolheu para quando era tomado pelo ímpeto de agredir alguém. Saudade significava tanta coisa que resolveu deixar num idioma só, para não complicar.
No dia seguinte, agendou um pronunciamento na TV para dizer que todos os cidadãos, a partir daquela data, estavam livres para externalizar sentimentos desde que seguissem com rigor aquele padrão semântico.
Os amantes, que até então só se comunicavam por arfadas e gemidos primitivos, agora podiam sentar e redigir cartas e poemas. Que dádiva.
Nasce o menino Shakespeare e seus blue caps. O teatro Elizabetano. Toda criação romântica, antes impossibilitada por falta de letras, agora sendo produzida em grande escala.
Aquela efervescência artística cretina que estamos habituados.
Todos em frisson, querendo incorporar personagens apaixonados, até os que nunca haviam sentido nada que o valha.
O resultado óbvio foi uma gama de interpretações distintas para um sentimento que foi criado apenas como unidade vocabular.
O macaco, já muito puto com aquela bagunça, porém também já muito velho, agenda seu último pronunciamento na TV:
- Meus senhores, não percebem a cagada que fazem? Não demora e essa confusão generalizada nos causará um Deus no acuda! Parem de ressignificar o bem querer. Quero dizer "amor" e ser tão compreendido como quando digo "mesa".
Cada vez mais exaltado, agora com as têmporas vermelhas e as veias saltando, continua o discurso:
- Hoje, veja que maldição, digo "amor" e está armada a confusão! O som que sai da minha boca viaja através de um canal labiríntico no cérebro do outro, através de seus exemplos e memórias construídas de amor ou de falta de amor, suas fantasias, suas lacunas, de maneira cada vez mais pessoal. O outro diz que compreende o que eu disse, mas como sei disso? Como eu sei que, usando a mesmíssima palavra, estamos nos referindo a mesma coisa? Que pileque comunicativo!
Antes de infartar ao vivo em rede nacional, o macaco ainda teve tempo de dizer que todo esse sentimentalismo exacerbado iria matar seu maior legado, que não foi a torre Eiffel nem o telefone sem fio, mas as palavras.
Seu último desejo foi que crucificassem Shakespeare ou o queimassem vivo. Como Cristo ou como Joana d'Arc, não importa, esse baderneiro deveria morrer.
Sobre o macaco pragmático, não posso dizer que descansou em paz. De vez em quando ainda se revira no túmulo quando um eu-te-amo faz o caminho da boca do emissor até o ouvido do destinatário e assume diferentes significados no trajeto.
Dizem os sombrios, esses chegados ao sobrenatural, que aproximando o ouvido do túmulo ainda podemos ouvi-lo resmungar.
Seus descendentes, agora patologicamente enamorados, foram reduzidos ao patamar de Homo. As sinapses cerebrais entraram em curto.
Sapiens mesmo, nunca mais vimos outro andando por aí.