Desculpe por guardar memórias. Pelos porta retratos, pelas xícaras, pela compilação de bilhetes que você cuidadosamente guarda em algum lugar bem dentro de uma gaveta bem dentro de um armário bem dentro de mim.
Desculpe pela cafeteira, que hoje faz café para uma só. Desculpe por aquele guarda roupa intacto com pertences que não são seus e, por agora não serem de ninguém, naturalmente você não saiba o que fazer deles. Desculpe por também não saber. Eu gostaria de poder ajudar.
Desculpe pelo jardim, pelo cão, pela disposição dos móveis, pela correspondência que chega em um nome que já não está. Por essas escadas onde você costumava a ouvir ou gritar "cheguei!". Pelo ímã na geladeira com o telefone do restaurante japonês. Pela maquiagem que você dividia. Pelas velas que você acendia.
Desculpe principalmente pelos domingos.
Desculpe por te fazer chorar.
Não importa se sua hospedagem será breve, é uma honra ser o seu teto. Por quantas luas você quiser. Costumam dizer, os inocentes, "se essas paredes pudessem falar." Eu falo.
E falo que presencei tanto da sua caminhada como ninguém. Sou um portão tão feliz quando você entra. Uma cama quentinha quando você se deita. Obrigada por acender as luzes, por trazer de volta a vida. Por deixar uma música correr. Por brindar naquele copo. Obrigada por não me deixar morrer.
É uma pena que eu não tenha braços.
Você não tem ideia de como eu te apertaria forte agora.
