domingo, 2 de dezembro de 2018

Carta a um amor que já não está


02:46h. Despertei sem você ao meu lado, como todos os outros dias. Este é diferente, no entanto. Despertei sem nenhuma possibilidade de você. Sem rastros. Sem seu amontoado de sinais gráficos cotidianos que, mesmo dispostos de alguma maneira distinta, significavam essencialmente: eu estou aqui. Ainda que porventura bagunçássemos as letras, era fácil dissecar os interiores daquelas mensagens incessantes. Qualquer leigo com um bisturi encontraria altas doses de quereres. Desde sempre.

Tenho um relógio inteiro escancarado ao meu lado para que eu faça o que bem entender dos ponteiros. Por ora, eu deveria usá-los para retornar aos meus sonhos, repousar as pálpebras, folgar as ideias.

No entanto, meu corpo, que não se curva às obediências fisiológicas, tem ideias muito diferentes das minhas. Pelo que tudo indica, pretende se revirar nos lençóis tentando curar uma falta. Os olhos abertos, desobstruídos de qualquer possibilidade de repouso. A infantil espera de uma correspondência que não vai tilintar na caixa do correio, se eu mesma já demiti todos os carteiros.

Quando o sol despontar eu passo um café, me perco em resoluções rotineiras, me acho. Volto ao prumo.

Até lá, desejo-me sorte.

Espero que você, em via contrária, tenha embarcado num sono bom.

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